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Histórias, costumes, tradições, representações do povo do Rio Grande do Sul: breve contextualização histórica e a figura do gaúcho.

Por Elaine dos Santos ·

Considerações sobre as relações entre Literatura e História, tendo, como ponto de referência, a possibilidade de conformação de uma identidade nacional ou regional. Apresenta-se o caso do romance "O tempo e o vento", no volume "O Continente I", como representação dos costumes, das tradições da cultura sul-rio-grandense, em particular do gaúcho, o trabalhador das fazendas de criação de gado, que, no período de ocupação e consolidação das fronteiras era chamado a ser guerreiro em defesa do seu chão e da liberdade.

Os historiadores da Literatura brasileira apontam a Carta , produzida por Pero Vaz de Caminha, escrivão da frota de Pedro Álvares Cabral, que aportou no Brasil em 1500, como o documento fundador da Literatura que se produziria desde então nessas terras. Temos, pois, um documento histórico, como uma espécie de certidão de nascimento das terras “em que se plantando tudo dá”, como escreveu Caminha, mas também uma escrita com pendores literários, que forjaria um imaginário sobre o Brasil em toda a Europa. Para além disso, o Romantismo (a partir de 1836), no Brasil, buscou referências naquele texto português, quando procurou exaltar a cor local, a exuberante natureza, a população indígena etc., em período posterior à Independência política, na tentativa de fixação de uma identidade nacional. O Rio Grande do Sul, estado mais meridional do Brasil, em que se insere o Núcleo da Rede Sem Fronteiras do qual faço parte, teve uma ocupação tardia em relação aos demais estados que, na atualidade, constituem a República Federativa do Brasil. Segundo consta, uma expedição exploratória, que se dirigiu à região de Montevidéu, no Uruguai, naufragou, em 1534, nas imediações do estuário da Lagoa dos Patos. Enquanto aguardavam o retorno da segunda embarcação, o comandante e seus marinheiros exploraram o local, que surgiu com o nome de Rio de São Pedro no mapa de Gaspar de Viegas. Convém fazer uma ressalva. Pelo Tratado de Tordesilhas, firmado em 1494, entre as duas Coroas Ibéricas, Portugal e Espanha, uma linha imaginária dividia as terras a serem encontradas na região a oeste do Oceano Atlântico. O Rio Grande do Sul, conforme essa linha demarcatória, de início, constituiu território espanhol. Somente o Tratado de Madri de 1750 redefiniria as fronteiras e a passagem desse território à Coroa portuguesa. Distante da capital do Império e, depois, da República, o Rio de Janeiro, os registros históricos denotam uma grande defasagem cultural em terras sulinas, com escassas produções poéticas e, mesmo assim, esporádicas. Somente no século XX (20), emergiria uma Literatura capaz de ultrapassar os limites estaduais, tendo, como caso exemplar, a trilogia de O tempo e o vento , de Erico Verissimo. Nascido no interior do estado, na cidade de Cruz Alta, em 1905, e falecido em Porto Alegre, capital do estado, em 1975, Erico Verissimo é o autor mais conhecido da Literatura produzida no Rio Grande do Sul e um dos poucos a alcançar projeção nacional e internacional. Em O tempo e o vento , em particular no primeiro volume, “O Continente”, é narrada a saga de formação do antigo Território de São Pedro. A presença dos tropeiros paulistas que vinham à região em busca de gado para o abate e a venda de charque aos trabalhadores das minas de ouro e prata no centro do país. Há os indígenas, com destaque para os guaranis, reduzidos às Missões Jesuíticas, espaço em que nasceria Pedro Missioneiro, o ancestral mítico do povo sulino, conforme a narrativa. Ainda em “O Continente”, o leitor toma contato com a família Terra, vinda do interior de São Paulo para ocupar as longínquas pradarias e resistir às investidas dos castelhanos contra o Rio Grande do Sul. Nesse cenário, aparece a jovem Ana Terra, que encontraria Pedro Missioneiro, em uma fonte de água, ferido, proveniente das Missões. Naquele lugar ermo, Pedro foi aceito pela família de Maneco Terra, pai de Ana, para trabalhar no pequeno sítio, desde que construísse uma moradia em separado. Ana e Pedro apaixonaram-se. Desonrada a jovem da casa, Pedro foi morto. Meses depois, nasceu o menino Pedro Terra, o habitante miscigenado. Sucediam-se as invasões e os conflitos com os castelhanos, até que Ana, depois da morte do pai, do irmão e dois escravos, decidiu abandonar a propriedade, acompanhada pelo filho, pela cunhada e pela sobrinha, juntou-se a uma caravana que se dirigia para Santa Fé, um novo povoado em construção. O modelo do homem gaúcho, habitante da zona fronteiriça ao Uruguai e à Argentina, legatário das principais tradições das pradarias, dos campos, surgiria em Santa Fé, anos depois. Ser bifronte, com o definem a Sociologia, a História, a Literatura, peão em tempos de paz e guerreiro em tempos de luta, Rodrigo Cambará vinha vestido com um dólmã militar, mas usava botas e bombachas, ao melhor estilo campeiro. Ele marcaria a vida do povoado de Santa Fé. Sob certo aspecto, é possível afirmar que a Literatura ajudou a firmar um modelo humano, afeito às lides das fazendas de criação de gado, à liberdade das pradarias, mas disposto a defender o seu chão, as suas tradições em honra a essa mesma liberdade. Esse modelo costuma ser lembrado e exaltado durante os festejos farroupilhas, realizados no mês de setembro, para que os costumes, os trajes, as histórias do povo sejam preservados.

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